Excerto traduzido da abertura do livro Las redes son nuestras: Una historia popular de internet y un mapa para volver a habitarla (2024), de Marta G. Franco.
Os roubos e as perdas
Há oito anos, roubaram-nos a internet. Levámos as coisas longe demais e tiraram-nos isso. Desde 2011, quando a internet se tornou sinónimo de redes sociais, protagonizámos a Primavera Árabe na Tunísia e no Egito, a Geração à Rasca em Portugal, o 15M em Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, o YoSoy132 no México, o Occupy Gezi na Turquia, o Vem Pra Rua no Brasil… Milhões de nós usámos as redes para gerar o ruído, a propaganda e a agitação que alimentaram movimentos sociais de massas. As mudanças políticas que impulsionámos são de alcance diverso mas, mesmo que nos pareçam insuficientes, o facto é que fomos longe demais. As forças do mal reorganizaram-se: aprenderam com as nossas táticas de inteligência coletiva e transformaram-nas num conjunto de metodologias para fazer batota e bullying. Delas beneficiam desde Trump até ao Vox, passando por Milei, numa convergência a que podemos chamar a Internacional do Ódio. Agora, as plataformas que nos ajudaram a encontrar-nos e a organizar-nos são um campo minado e experiências desagradáveis.
O dia de hoje fica marcado por um acontecimento grave no processo democrático do Parlamento Europeu.
Num primeiro momento, no que o jornal POLITICO apelida de manobra de poder da Presidente do Parlamento Europeu que, segundo diplomatas, não tem precedente, Roberta Metsola pediu ao Conselho que aprovasse uma proposta que o Parlamento Europeu havia chumbado por duas vezes, abusando do mandato que lhe fora conferido.
Paralelamente, foi adoptado um procedimento de emergência a ser votado hoje, o último dia de plenário antes das férias do Parlamento Europeu. Uma manobra – pois não existe uma real emergência – que permitiu mudar as regras do jogo e contornar as regras do processo democrático. Neste tipo de procedimentos, as maiorias simples já não valem para a rejeição – o diploma ou é rejeitado por maioria absoluta de todos os deputados (não apenas dos deputados presentes) ou considera-se aprovado. No último dia de plenário antes das férias, várias dezenas de deputados já não estiveram no Parlamento (por exemplo, na última votação de hoje do Chat Control 1.0 estiveram ausentes 127 deputados).