Excerto traduzido da abertura do livro Las redes son nuestras: Una historia popular de internet y un mapa para volver a habitarla (2024), de Marta G. Franco.
Os roubos e as perdas
Há oito anos, roubaram-nos a internet. Levámos as coisas longe demais e tiraram-nos isso. Desde 2011, quando a internet se tornou sinónimo de redes sociais, protagonizámos a Primavera Árabe na Tunísia e no Egito, a Geração à Rasca em Portugal, o 15M em Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, o YoSoy132 no México, o Occupy Gezi na Turquia, o Vem Pra Rua no Brasil… Milhões de nós usámos as redes para gerar o ruído, a propaganda e a agitação que alimentaram movimentos sociais de massas. As mudanças políticas que impulsionámos são de alcance diverso mas, mesmo que nos pareçam insuficientes, o facto é que fomos longe demais. As forças do mal reorganizaram-se: aprenderam com as nossas táticas de inteligência coletiva e transformaram-nas num conjunto de metodologias para fazer batota e bullying. Delas beneficiam desde Trump até ao Vox, passando por Milei, numa convergência a que podemos chamar a Internacional do Ódio. Agora, as plataformas que nos ajudaram a encontrar-nos e a organizar-nos são um campo minado e experiências desagradáveis.
Na verdade, foi a segunda vez que nos roubaram a internet. Já tinha acontecido antes, quando surgiu aquele modelo de negócio baseado na monetização das dinâmicas sociais que nós tínhamos inventado. Foi o movimento antiglobalização que começou a programar páginas web onde quem quisesse podia publicar com um simples clique. Isso aconteceu em 1999 e o objetivo era facilitar a divulgação de convocatórias e vídeos de manifestações. Depois, a Google comprou a tecnologia que lhe serviu para lançar o Blogspot e ficou com o YouTube. A tendência de serem utilizadores a criar conteúdo passou a chamar-se Web 2.0 e disseram-nos que isso nos colocava no centro. Omitiram que o nosso papel consistiria em trabalhar de graça 24 horas por dia, 7 dias por semana, para produzir a matéria-prima mais valiosa: os dados. Foi um golpe fantástico para levar a internet de volta ao bolso de uma indústria que, na altura, estava em baixa.
Além disso, o que aconteceu há oito anos talvez tenha sido a terceira vez que nos roubaram a internet. Se recuarmos ainda mais no tempo, é sabido que, no início, a World Wide Web era uma coisa de nerds e entusiastas que queriam partilhar ideias em salas de chat e páginas de estética questionável. Infelizmente, surgiram pessoas que, com esperteza, tentaram transformar isso num negócio através da entrada em bolsa das empresas ponto com, cuja bolha rebentou na viragem do milénio, não sem antes ter liquidado para sempre o encanto amador da invenção. Ou seja, se tivermos de fixar um número de roubos, talvez sejam três.
Esta linha temporal de inteligências coletivas e capturas capitalistas já foi contada muitas vezes, mas aqui proponho percorrê-la fugindo dos mitos. Embora pensemos que a camada técnica do que hoje chamamos de internet tenha sido projetada em Silicon Valley (o que já é conceder-lhes demais), a invenção e a inovação contínua na sua utilização é um trabalho criativo global, principalmente a partir da base e, enfim, com pouco protagonismo de homens brancos ricos norte-americanos. É necessário um exercício de memória histórica da internet para reivindicar o papel dos hacklabs, dos centros de investigação públicos, dos streamers que gastam a sola dos sapatos nas ruas e das senhoras que enviam memes para grupos do WhatsApp, entre muitos outros atores que não costumam aparecer nas narrativas épicas de empreendedores de sucesso.
Revisitar essa história de vitórias — porque se nos roubaram e perdemos três vezes, é porque um pouco antes, três vezes, estávamos a ganhar — não é um exercício de nostalgia impotente, é uma ferramenta para lembrar que é possível vencer. Que a internet pode ser um território onde se pode aprender, colaborar e avançar em direção a algo que se pareça muito mais com o mundo em que gostaríamos de viver.
As fissuras que se abrem
Na primavera de 2020, aconteceu algo que foi determinante em muitos domínios, incluindo a internet: aquelas semanas de pandemia em que milhões de pessoas ficaram em casa acabaram por mudar a nossa relação com os ambientes digitais. Quem até então não lhes tinha prestado especial atenção também percebeu que estavam cheios de merda. Quando pudemos sair à rua, toda a gente sabia que as redes sociais são um hábito tóxico.
Mas a pandemia foi apenas a gota que fez transbordar o copo: o nosso amor pelas redes sociais já vinha diminuindo há algum tempo. Para que Mark Zuckerberg quisesse mudar o nome da sua empresa para o insosso Meta, foi necessário que sofresse uma série de reveses, incluindo o escândalo da Cambridge Analytica, a perda de interesse pelo mural do Facebook (onde agora só se encontram pais e mães), a obsolescência dos influenciadores plásticos que povoam o Instagram e a revelação de que os seus produtos estavam tão ultrapassados que nem mesmo a transferência para um novo metaverso poderia salvá-los. Ninguém teria acreditado nisso há quatro ou cinco anos, mas o Facebook Inc. já não existe e sua herdeira não é líder nem parece ter chances de se recuperar.
A decadência das plataformas sociais comerciais avançou de forma proporcional à perceção de que são um problema para a democracia. A comunidade hacktivista vinha alertando há muito tempo que tais plataformas eram altamente problemáticas como espaço para o debate público. Infelizmente, foi preciso que um senhor com a mesma energia do sapo Pepe chegasse à presidência dos EUA para que lhes déssemos razão. O assalto ao Capitólio em janeiro de 2021 confirmou que a democracia liberal está quebrada; a repetição da jogada dois anos depois por parte de apoiantes de Bolsonaro lembrou-nos que não há solução fácil. O facto de a extrema direita estar a governar ou a bater às portas de tantos governos também é conclusivo, a ponto de Bruxelas parecer decidida a aumentar a regulamentação e exigir responsabilidades. No entanto, com a quantidade de desgraças perpetradas pelos poderes políticos, mediáticos e económicos na era neoliberal, é absurdamente reducionista atribuir a ruptura aos algoritmos.
A queda está a ser dura. As empresas tecnológicas despediram várias centenas de milhares de trabalhadores. A lista é liderada pela Meta, mas também estão bem no topo a Amazon, o Twitter e a Netflix. O extrativismo de dados está a renovar-se com o design de aplicações de algo a que chamam «inteligência artificial». O seu mérito é gerar textos medíocres e imagens feias depois de digerir conteúdos criados por pessoas a quem não querem pagar. Mas o novo modelo de negócio não é suficiente para distribuir o bolo por toda a cidade de São Francisco e os investidores que financiam promessas de lucro estão a perder a paciência. Os tech bros foram reduzidos à caricatura que sempre suspeitámos que fossem. O espetáculo grotesco que Elon Musk está a dar na sua tentativa de colocar o Twitter ao serviço do seu programa antipolítico é uma péssima notícia, porque nos apanha sem alternativas para a conversa global. No entanto, o facto do Mastodon ter ganho milhões de habitantes só pode ser indicativo de que se aproximam tempos interessantes para as infraestruturas autogeridas.
Se aprendemos alguma coisa nestes anos, foi a afastar-nos das visões otimistas e ingénuas. A internet deixou de ser um lugar agradável para experimentar e aprender. Agora é um território denso, viciante e gerador de ansiedade, onde vivem unicórnios que enriquecem vendendo fumo e onde sobrevivem analistas de dados e criadores de conteúdo à custa da sua saúde mental; onde podes ganhar dinheiro suficiente para comprar uma casa no paraíso fiscal de Andorra, mas também pode arruinar-te a vida caso alguém encontre algo inadequado que escreveste há anos. A internet é o lugar onde nascem as aplicações que estão a tornar precárias as nossas condições de trabalho e de habitação. Perdemos a inocência, mas também a confiança. É assim que volta a vontade de olhar para fora e o interesse em inventar novos mundos.
E as luzes que iluminam territórios desconhecidos
Que o preço que pagamos por usar a internet seja cada vez mais alto tem um lado bom: o contrato social com as grandes empresas de tecnologia está a quebrar-se. Abundam textos e gurus que oferecem fórmulas de autoajuda e, em menor medida, de politização do mal-estar. Falamos de desintoxicação digital, do direito à desconexão, de recursos para desmontar as notícias falsas e de ações coletivas de contra-ataque. Queremos construir a nossa própria agenda, os nossos próprios meios de comunicação, as nossas próprias notícias falsas. Tem de haver vida para além das plataformas comerciais. Finalmente, fala-se da necessidade de nos dotarmos de infraestruturas digitais como serviços públicos. Se o Estado se encarrega de manter bibliotecas, escolas ou passeios, por que não também locais de conversação na internet? Não acho que seja a melhor maneira, porque temos muitas experiências em que o Estado não foi a melhor opção, mas não conheço outra ferramenta de intervenção na realidade tão transversal e hegemónica, por isso teremos de insistir nessa via.
Talvez seja necessário também potenciar mais canais de colaboração público-privada, mas sem esquecer uma terceira via, a do bem comum. É a que mais me interessa, porque é por aí que se caminha melhor para a justiça social. O movimento do software livre vem demonstrando, desde os anos 80 do século XX, que tem uma fórmula de desenvolvimento bastante sólida. À primeira vista, o movimento da cultura livre ficou estagnado em 2002 com a criação das licenças Creative Commons, mas um olhar mais atento percebe que a Wikipédia continua a existir e não parou de crescer. Será necessário reciclar todas as aprendizagens dessas décadas para garantir que o terceiro setor e os movimentos sociais estejam à altura do renovado interesse pelos espaços digitais autogeridos.
Outra boa quantidade de impulsos a favor da mudança vem, surpresa!, do mundo sindical: quase ninguém os viu chegar, mas as greves na Amazon e Uber e a organização de trabalhadores das plataformas digitais estão a ter um sucesso relativo para forçar a mão de alguns grandes comerciantes de dados e conquistar direitos, pelo menos na Europa. Por outro lado, por mais distantes que estejam de ser alternativas viáveis para todas as pessoas, as tentativas de criar aplicações para vender serviços com mais ética, as iniciativas para criar soluções de baixa tecnologia e as oficinas para reparar os nossos aparelhos só podem remar na mesma direção. Tudo contribui para que trabalhadores e consumidores ganhem autonomia frente às grandes empresas.
Há muito a fazer e a imaginar. Temos, inclusive, que reconceituar a própria ideia de tecnologia: repensar a velha noção do que é, ou não, desenvolvimento; rever quem está por trás da própria invenção das redes; pensar em maneiras de tornar o design do que está por vir mais participativo e mais ligado às necessidades reais das comunidades afetadas. É hora de sair dos trilhos que foram instalados para as locomotivas dos senhores multimilionários que vamos ver descarrilar. Construir outros caminhos onde possamos andar mais confortavelmente. Nas hibridizações dos hackers com os movimentos feministas, descoloniais e de justiça climática, há muita iniciativa e muita força para imaginar bens comuns digitais.
Por enquanto, neste livro vamos procurar todos os faróis que apontam para a frente. Assim como inventámos a internet pelo menos três vezes, podemos reinventá-la agora. Podemos imaginar outros futuros e torná-los possíveis. Não me importa se se chamarão internet ou outros nomes que terminem igualmente em rede. Porque a internet foi a façanha mais descentralizada da história da humanidade, a máquina mais eficaz e eficiente jamais inventada para colocar o conhecimento ao alcance da maioria e ao serviço da organização social a partir de baixo. E, mais uma vez, vamos virá-la do avesso para que a aventura continue.
Texto original e tradução disponíveis sob licença CC BY-NC-ND 4.0.